terça-feira, 31 de maio de 2011

Devia ser proibido (1)

Devia ser proibido pedir para a pessoa que está chorando parar de chorar ou perguntar por que ela está chorando. Sério, ou ela chora, ou ela conversa – custa dar um abraço e depois conversar?

Devia ser proibido dividir guarda-chuva. Um guarda-chuva já não é tão eficaz assim para uma pessoa. Você divide e pronto, duas pessoas molhadas! E não adianta falar que é egoísmo, porque você esqueceu o seu e não quer que o outro tenha um mínimo de dignidade na chuva?

Devia ser proibido pedir calma para uma pessoa aparentemente irritada. Afinal, se ela está irritada, ela já sabe disso. E mesmo que ela não esteja de fato irritada, ela vai acabar ficando por achar que você acha que ela está quando ela não está.

Devia ser proibido marcar provas para segunda-feira. O dia já é traumatizante o bastante. Você marca a bendita prova e pronto, acaba com o final de semana – direito de todo mundo!

Devia ser proibido ficar doente nas folgas ou nas férias.
(Nem precisa explicar, né?!)

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Toque

Como a pena encontra a superfície depois da queda livre
Sua pele encontrou a minha
Seus dedos se entrelaçaram aos meus
Vorazes, mas carinhosos
Desejo e respeito no mesmo toque


Não esperava por aquele encontro
Me rendi
Deixei que seus dedos desenhassem o contorno do meu corpo e
Que vez ou outra sua mão encontrasse a minha
Era companheiras
Queriam a mesma coisa: o corpo do outro

Percorri o seu corpo com a mesma delicadeza
Retribui
Senti seu coração acelarar, seus pulmões se inflarem e se esvaziarem com mais frequência
Era seu corpo conversando com o meu

Deixei que suas narinas roubasse meu cheiro
Que seus dedos percorressem meus cabelos
Que seus lábios tocassem meu pescoço
Que seu nariz se encostasse no meu

Olhei dentro dos seus olhos e você, dos meus
Vi seu coração aberto para mim
Alguns segundos de inconsequência
Dois perdidos se achando
Dois toques se fundindo

Mas todo toque destoca
Dedos se desenlaçam
Lábios de desprendem
Corpos se desgrudam

Deixei que você se fosse, que desencostasse, que se afastasse de mim
Que os limites das nossas silhuetas se desencontrassem
Que levasse contigo um pouco de mim
Uma memória que seja do momento em que eu fui só sua e você só meu
Da sua coragem de se permitir me tocar
Dos segundos em que você me fez completamente feliz

terça-feira, 24 de maio de 2011

Cadê o nariz que tava aqui?

Quando eu era criança, eu queria crescer.
Crescer para ser dona do meu nariz e fazer tudo que eu quisesse.
Eu não ia fazer mais deve de casa, nem estudar para prova, nem escutar desaforo, nem engolir o choro ou perder minhas Sessões da Tarde por causa de coisas que eu julgava inúteis.
Eu só ia para onde eu quisesse, com quem eu quisesse, para fazer coisas divertidas.

Mas aí eu cresci.
Cá estou: adulta!
Comendo o que eu não quero (ou alguém sonha em comer barra de cereal e salada?), estudando para provas mais infernais que as do passado, perdendo a Sessão da Tarde todo santo dia, escutando desaforo até de quem não tem direito de falar nada, engolindo choro o tempo todo, indo para lugares onde não quero ir, socializando com pessoas que detesto, falando de assuntos que me entediam.

A conclusão a que chego é bem simples.
É tudo culpa do nariz!
Não sou dona do meu como estava no meus planos.
Antigamente acho que eles eram dos meus pais.
Era assim que eu imaginava pelo menos.
Aí, aos 18 anos, magicamente ele seria meu.
Mas alguma coisa não deu muito certo nessa história...
Não sei se o perdi pelo caminho ou se o roubaram de mim.
Só sei que tudo desandou.
E estou vivendo minha vida à la Michael Jackson: completamente sem nariz!
Como? Por quê?
Não faço a menor ideia. E nem quero saber.
Porque o fato é que sou uma adulta e não sou dona nem do meu próprio nariz! Que dirá das respostas para as perguntas complicadas!

Lara - noseless

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Um período nada sabático

Depois de meses, eis que as Queridonas dão as caras no mundo online novamente!
E esse post é especial para s curiosos de plantão que querem saber por onde estávamos e porque voltamos.

Meus queridos, andamos por todos os lugares! Teve Queridona que se mudou de país, teve também a que fez mochilão e quase não voltou mais, teve a que arrumou emprego novo, teve a que virou fotógrafa, a que se envolveu com um garçon, a que se entrou pra um site de relacionamento, a que só fez o que não gostou. Teve até quem virou Queridão, mas está com filme queimado com a gente por não dividir uma fofoca. Olha, teve de tudo um pouco, mas isso... ah, isso é assunto para vááááários posts que virão

Mas quer uma resposta simples para o que aconteceu? Como diria a sábia Summer de 5oo dias com ela: a vida. A vida foi chegando, acontecendo e a gente foi vivendo o que tinha que viver. O blog foi ficando... Não posso falar por todas as Queridonas, mas o que aconteceu comigo foi que a vontade de escrever foi sumindo. Eu não podia eescrever o que eu queria, negligenciei o blog sem dó, mas a culpa não é minha, é da vida! ( A culpa é minha e eu ponho ela onde eu quiser, ouviu?)

Outro dia eu vi em algum lugar (provavelmente num seriado ou no Discovery Channel) que nossa ideia de tempo se baseia em fatos. Guardamos os relevante e ignoramos os insignificantes. Assim, se muitas coisas interessantes acontessem, o tempo passa rápido, senão, congela. Se a teoria é verdade, eu não sei. Às vezes acho que sim e às vezes, que não. O que eu sei mesmo é nos últimos tempos, nada de muito relevante aconteceu. Quer dizer, mais ou menos. Fui descobrindo minha nova paixão: a fotografia, fui me desligando de coisas que me atrasavam, mudei bastante, mas continuei a mesma. Mas no fim do dia, não consegui organizar nada em palavras e em posts. Foi isso que aconteceu: a vida. A vida não me deixou escrever. E eu também não me permiti. Vivi. Só isso.

E por que voltar agora? Porque as Queridonas não conseguem ficar longe da escrita por muito tempo, né? Depois de um período de preguiça e de negligência, que a gente gosta de chamar de "pesquisa de campo," voltamos com intenção renovada de ficar. Ficar para contar babados, para escrever decentemente, para fazer da vida poesia.

Declaro esse blog definitivamente reativado! Porque, afinal, a gente veio ao mundo para causar!

Beijos ansiosos,
Lara

sábado, 1 de janeiro de 2011

2011

Nenhum ano será realmente novo se continuarmos a cometer os mesmos erros dos anos velhos. (Camões)



quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Borges

Ele estava em uma cadeira de rodas, imóvel, mas amava a ver dançar. Ela tinha um encanto pela música, especialmente da maneira que só ele sabia como tocar. Não eram amigos, eram apenas conhecidos. Se viam de vez em quando no shopping, no parque, no cinema, tinham vários gostos e amigos em comum, mas não eram amigos de verdade. Se cumprimentavam quando se viam e trocavam uma idéia ou outra, mas nada muito profundo. Eram apenas conhecidos.


Um amigo dele, aliás, um grande amigo dele um dia começou a namorá-la. Imagina a surpresa dele! Imagina a surpresa dela ao ver que o grande amigo do namorado era aquele menino simpático da cadeira de rodas! Começaram a se ver com mais freqüência e a se conhecer. Ele admitiu que adorava a ver no palco, e ela enrubesceu tão sutilmente que só ele foi capaz de perceber. Era graciosa até nos momentos de timidez, ele pensou. Ela admitiu ter os mesmos gostos musicais que ele, e falou ainda que antes dele sofrer o acidente, quando ele tocava em shows na universidade, ela nunca faltava uma apresentação. Era uma fã incondicional.

Começaram a cultivar uma amizade de verdade. No dia em que a avó dela morreu, ele estava lá para segurar sua mão, no dia em que ele ingressou para o mestrado, ela foi a primeira a saber. Enquanto eles se tornavam melhores amigos, ela e o namorado cresciam também em seu relacionamento. Então em um domingo ensolarado, em um churrasco aparentemente sem muito compromisso, o namorado decidiu a pedir em casamento. Era o sonho dela começar uma família e ela aceitou na hora.

Foi aí que as rosas começaram. No começo ela achou aquilo tudo muito estranho, mas romântico. Desde que ela tivera se tornado noiva ela recebia uma rosa todos os dias pela manhã em sua casa. Não era bem a cara de seu noivo ficar mandando uma flor todos os dias para ela, mas só podia ser ele. Ela achava o máximo  receber rosas por que fazia referência ao seu livro favorito inclusive. Ela não era o tipo de pessoa que tinha admiradores secretos e amores impossíveis, era uma pessoa muito bem resolvida acima de tudo. Tinha agora já uma imensa coleção de rosas. Tinha semanas que vinham só as vermelhas, outros dias mudava e mandava as amarelas, as brancas, as rosas. Quando ela perguntou o sentido das rosas para o noivo, ele se fez de desentendido, falou que não sabia do que ela estava falando. Ela, em sua inocência, achou encantador a negação.

Mas aí o inimaginável aconteceu. Nas vésperas do casamento, no que devia ser a época mais feliz na vida dela, seu melhor amigo morreu. Foi um ataque cardíaco fulminante, sem muito mistério. Aconteceu e ele morreu. Os médicos a asseguraram que ele não tinha sofrido muito. Isso a tranqüilizou, mas não diminuiu a dor.

Ela se conformou e a vida continuou.

Mas as rosas, essas nunca mais apareceram misteriosamente em sua casa.


Steph - desvinculando

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

tudo que eu queria te dizer

- Eu consegui um emprego em outro estado.

Abri a janela do carro. Me senti meio tonta com uma leve ânsia de vômito. Como assim? Como que você faz isso comigo!? Mas só sorri.

- É mesmo? Que estado?

Não era essa a reação que eu esperava. Não tinham me dito que ela gostava de mim? "Em que estado?" era só isso que ela tinha pra me falar? Quem liga pra qual estado eu estou indo, eu queria que ela pelo menos fingisse que ficaria triste com a minha partida.

- Curitiba. A empresa vai arcar com todas as despesas nos primeiros seis meses até eu me adaptar.

Até você se adaptar? Espero que você nunca se adapte! Espero que você tenha a pior experiência do mundo nesse seu novo emprego!

- Que ótima oportunidade, hein! Essa você não podia deixar passar mesmo!

É, de fato eu não podia deixar passar mesmo, mas... Era sério que ela achava isso uma ótima oportunidade? Ela está até sorrindo! Nossa, bom saber que sou tão insignificante assim na vida dela, justo agora que estávamos nos conhecendo melhor.

- É, eles geralmente perguntam para os mais novos e solteiros da empresa por que não tem família nem nada muito significativo os segurando em um lugar específico.

Isso foi uma indireta? Nada significante? EU sou nada na sua vida? Você só entra na minha vida quando bem entende e agora já tá praticamente de malas prontas pra me abandonar pra sempre e quer realmente que eu fique feliz por isso? Você não vai dar nem uma chancezinha pra essa nossa amizade tão frágil?

- Ah, claro! Faz perfeito sentido, se eu fosse você, nem pensaria duas vezes. Também aceitaria na hora.

Aceitaria na hora? Eu quase nem aceitei por que queria te conhecer melhor mesmo com essa minha timidez que não consigo superar. Por que você não entende que eu gosto de você?

- Pois é, ainda mais que não tem nada me segurando por aqui...

Ok, isso foi uma indireta. Não é possível! Fala alguma coisa, qualquer coisa para diminuir esse silêncio. Sério, qualquer coisa mesmo. Vai lá, salva essa situação. Por que ele tá me olhando desse jeito?

Se declara logo e acaba com esse sofrimento de uma vez por todas. Oportunidade melhor que essa nunca mais na vida, que fique bem claro! Vai, fala! E esse olhar dela?

Mas aí o momento passou e o silêncio continuou.

E ele não falou nada.

E ela também não.

 
Steph - brincando com a ficção e a realidade