quinta-feira, 16 de setembro de 2010

recortes pt. 6

No outro lado da linha, o músico olhava para o celular que tinha terminado nossa conversa de maneira abrupta e riu. Sabia que eu era péssima em carregar meu celular e sabia que provavelmente a bateria tinha acabado mais uma vez no meio de uma de nossas conversas. Pondo o celular no bolso, foi até seu quarto onde estava o engenheiro.

“Que cara é essa?” disse o engenheiro ao o ver entrar no quarto.
“Ah, meus planos foram cancelados hoje...” respondeu olhando para o chão.
“E desde quando isso é motivo para ficar em casa olhando para o chão? Vamos sair! Barzinho é o que não falta nessa cidade!”
“Ah, acho que é melhor ficar em casa mesmo, amanha tenho que acordar cedo..”
“Então quer dizer que pode voltar tarde do cinema, mas não de um barzinho para casa? É isso que eu estou ouvindo?”
“Ha-Ha, no cinema pelo menos eu não chegaria em casa bêbado!”
“Vamos beber só para relaxar então, não temos nada melhor para fazer mesmo! Vamos, aposto que o resto do pessoal deve estar por lá...”
Hesitou um pouco, sabia que não era uma boa idéia ir, mas se deixou levar pela pressão do engenheiro.

....

O barzinho estava lotado para variar. Quando chegaram lá, logo avistaram um grupo de amigos seus que estudaram com eles na faculdade. A noite estava agradável e uma cerveja gelada era o que faltava para tornar aquele cenário ideal. Assim que sentaram, avistaram uma mesa de mulheres que usavam jalecos brancos. Assim que o músico tinha sentado percebeu que uma delas em particular não parava de o olhar. Achou aquilo estranho, pois nunca tinha a visto antes.
Depois de algumas horas, e algumas várias cervejas, a mulher que o olhava, a loira, se sentou no lugar vazio do lado do músico.
“Você não se lembra de mim, não é? Ela falou se inclinando um pouco perto demais dele.
“E é pra lembrar?” Ele perguntou, tentando se afastar.
“Já fomos casados! Como não se lembra de mim?” Ela riu e ele ficou momentaneamente petrificado em seu lugar esperando uma explicação.
“Sim, acho que estávamos na terceira série, e nós éramos o casal da festa junina do colégio. O padre nos casou e tudo!” Continuou rindo e Ele finalmente parece ter se situado em relação aquela estranha.
“Ah! Nossa! Aquilo foi há mil séculos atrás! Como se lembrou de mim?” Perguntou realmente surpreso.
“Uma mulher nunca esquece seu primeiro marido!”
O engenheiro, presenciando essa conversa toda, percebeu que a loira queria algo mais daquela conversa, enquanto o músico parecia realmente só estar lá pela conversa. Sabia que seu amigo estava triste em relação ao furo da amiga, mas ele (o engenheiro) levava o rancor dela nunca ter ligado para ele e nem mesmo ter mencionado sequer uma vez seu encontro na festa. Sabia também que seria só uma questão de tempo até que eles (a menina e o músico) se entendessem e ficassem juntos. O engenheiro estava decidido a não deixar isso acontecer sem ele ter sua devida chance com ela.

Encabulada (final)

Depois de alguns dias, ela já estava bem melhor. E, de fato, tinha aprendido alguma coisa: o tempo é mesmo o melhor remédio! Mas eis que, na segunda-feira antes do tal concurso, vem a surpresa: a caminho do trabalho, ela recebe uma ligação do dito-cujo, querendo saber se eles poderiam se encontrar no final da tarde. Ela inicialmente ficou sem saber o que dizer, pois esperava que o encontro fosse acontecer só na semana seguinte, mas disse que daria um jeito. A esperança de colocar os pingos nos ‘is’ - de uma vez por todas - a deixou estranhamente animada.

Para o encontro, o rapaz sugeriu a torteria favorita dela, mas ela disse que a praça de alimentação do shopping estava de bom tamanho e era mais perto. Marcaram no shopping, às 19 horas. Sempre pontuais, os dois chegaram quase juntos e ele, tentando criar um clima mais amistoso, foi logo perguntando sobre o dia dela. Ela, curta e grossa e sem um pingo de paciência, disse que não interessava e que era melhor irem direto ao ponto.

Ele então começou a se explicar e disse que queria uma espécie de tempo, que precisava acertar os 'ponteiros', mas que gostava muuuito dela. Aham. Ela imediatamente rejeitou a proposta do 'tempo' e disse que, considerando a situação, era melhor não ficarem juntos mesmo, que cada um deveria seguir com sua vida e que ele poderia ficar tranquilo para ficar com quem ele quisesse.

Confuso (ou se fazendo de confuso), ele disse que não estava entendendo a reação dela e que não tinha ninguém na vida dele. Ela, meio nervosa, riu. O rapaz, percebendo a delicadeza da situação, jurou por tudo que é mais sagrado que não tinha outra pessoa na vida dele e que apesar de gostar muito dela, a viagem tinha ajudado ele a ver as coisas sob outra perspectiva e que ele só estava precisando de um tempo para repensar a vida dele - sozinho. Era só isso.

Querendo por um fim ao encontro, ela disse que não se importava com o que pudesse ter acontecido de verdade e nem com as repensadas da vida dele, mas que ele devia ter sérios problemas por apresentar uma mudança de comportamento tão abrupta sem um motivo decente. Ela concluiu a conversa dizendo que talvez fosse melhor ele ficar sozinho mesmo, e pediu para que nunca mais a procurasse, ligasse ou mandasse mensagem. Era melhor assim. E sem perder tempo ou dar a ele a chance de prolongar o diálogo, ela levantou-se e foi embora, enquanto ele ficou ali - com aquela cara de pastel sentado a mesa.

Era A separação (definitiva!). E a verdade era que ela não fazia questão de trocar o adjetivo dessa vez - pois sabia que isso poderia machucá-la ainda mais. Mas não era verdade que ela não se importava com a verdadeira causa de toda a mudança. "Será que ele estava dizendo a verdade? Será que não tem mais ninguém? Será que ele nunca mais vai me procurar mesmo?" - eram pensamentos que insistiam em permanecer na sua cabeça; e ela ficou encabulada pensando nisso por um bom tempo, mas confiando que o melhor remédio (o tempo) logo logo faria efeito...

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Encabulada (continuação)

Na última ligação, ele disse que estava pensando sobre o namoro e que talvez aquilo não fosse dar certo - que talvez tivesse se precipitado demais. Disse ainda que estava sentido falta da tal “paixão avassaladora” e que isso era fundamental para o sucesso de qualquer relação. Apesar da inexperiência em relacionamentos, ela já tinha uma idéia do que ele realmente estava querendo dizer. E como sempre foi objetiva na vida, disse:

- Você quer terminar? É isso? Tudo bem. Mas você começou esse namoro olhando na minha cara então o mínimo que você pode fazer é terminar ele aqui, na minha frente e olhando nos meus olhos.

O rapaz então disse que poderia ter se expressado mal, que não era bem isso que ele queria dizer, mas que de qualquer forma eles precisavam conversar e que isso seria feito assim que ele retornasse de viagem. Ok. Acrescentou ainda que os pais o buscariam no aeroporto e que ele ligaria para marcar um encontro – mas só depois que fizesse a prova do concurso que quase todo mundo em Brasília ia fazer, ou seja: uma semana depois de voltar de viagem. Muito bom!

Quando aquela esquisita ligação terminou, a professora só conseguia pensar em uma coisa: doença – é isso! Ele deve ter sérios problemas psicológicos e precisa urgentemente de tratamento. E agora parecia que ela também precisava de alguma coisa – estava possessa! “Como pode, eu estava quietinha, Senhor. Esse infeliz entra na minha vida e depois faz uma coisa dessas... sem nenhuma explicação decente e do nada”.

Ela tinha esperado tanto tempo pela pessoa ‘certa’ e em pouco tempo descobriu que a sua super aposta, que tinha tudo pra ser um sucesso no começo considerando tamanha dedicação do rapaz, foi a maior furada da sua vida. “Que ódio” – ela repetia sem se dar conta. E então, depois que a raiva e o ódio passaram, ela chorou. Chorou porque estava se achando uma idiota de ter confiado tão rápido em alguém que ela mal conhecia. Chorou porque já estava sentindo falta das ligações e mensagens e encontros e beijos. Chorou porque não conseguia entender o que tinha feito de errado...

Então, ela se deu conta que, naquele momento, precisava mesmo era de alguém para confortá-la. Imediatamente ligou para sua melhor amiga que ao saber do ocorrido, sem nem pestanejar, disse:

- Ele tem outra. Certeza. Essas coisas não acontecem assim. Com certeza ele saiu lá, encontrou alguém e está se achando. Pode até não ter ficado com ela nem nada, mas com certeza ficou balançado e estava carente... Vocês estavam namorando há o quê? 5 meses, né?

- Isso, quase 5 meses – disse a professora ainda inconsolada.

- E era só beijos e abraços, né?!

- Claro, você sabe que eu quero casar antes de qualquer coisa.

- Então você já sabe o que deve ser o sinônimo de paixão avassaladora, né? Mas é isso, bola pra frente. Tudo acontecesse por uma razão, às vezes é pra te mostrar que não existe pessoa perfeita... e que muita água vai passar debaixo da ponte ainda... E no fim é bom acontecer essas coisas, a gente sempre aprende alguma coisa... Ânimo, amiga, tem muita gente nesse mundo!!!

Mas a nova solteira só conseguia pensar na repentina mudança de comportamento do rapaz. Dentro dela algo dizia que tinha relação com outra pessoa, só que ela não queria acreditar. Depois que sua amiga pronunciou aquelas palavras foi como se o pensamento tivesse se transformado em realidade. E doeu mais ainda.

Quanto a paixão avassaladora, ela não sabia muito o que dizer – não tinha conhecimento de causa. O que ela sabia era que paixão é um tipo de sentimento muito instável e que não dá pra construir nada sólido tendo ela como base. Só o amor pode ser essa base. E provavelmente não fosse esse o caso.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Encabulada

“Namora comigo? Eu posso te fazer muito feliz – só preciso de uma chance”.

Não foi a primeira vez que a professora ouviu um pedido desse tipo – mas foi a primeira vez que ela se sentiu inclinada a aceitar. E o motivo não tinha nada a ver com amor, paixão ou qualquer coisa parecida. Aquela inclinação era resultado das várias investidas do rapaz. “Tanta persistência assim deve significar alguma coisa, talvez seja desígnio divino” – pensou ela.

Assim, aos 23 anos, ela finalmente decidiu aceitar um pedido de namoro. Sim, aos 23 anos! Ela já estava formada, tinha um bom emprego, já havia viajado para vários lugares e estava começando a sentir falta de algo que nem ela sabia explicar direito. Um namorado, ou melhor, um companheiro poderia ser esse algo. E o rapaz em questão, que insistia em agradá-la de todas as formas, poderia ser esse alguém. Afinal, eles compartilhavam crenças, tinham gostos parecidos e estavam dispostos a investir em uma relação – então, por que não?

Começaram a namorar. E a professora, tão acostumada com sua independência, se viu obrigada a abrir caminho para algumas mudanças no seu dia-a-dia. Eram mensagens e telefonemas e almoços e cinemas e jantares mais que freqüentes. Aos poucos, ela – que inicialmente demonstrava certa frieza, fruto da sua inexperiência – foi se soltando e viu que sabia ser carinhosa. Percebeu que estava gostando tanto da nova experiência quanto do persistente rapaz.

Os dois estavam juntos a pouco menos de um mês e tiveram a primeira separação (provisória!). Ela fez uma viagem ao exterior, e diferente do que estava acostumada, teve que ligar para a cidade natal com bastante frequência. No começo ela se esquecia ou até mesmo estranhava ter que dar satisfação dos seus dias de férias. Mas depois, apegou-se ao ritual e inclusive tinha a necessidade de partilhar as novidades. Ao voltar de viagem, foi apresentada para a família dele e sentiu que aquilo realmente poderia dar certo. Seria o primeiro namorado, seu futuro marido? Era aquilo que estava reservado para ela? Parecia que sim. E ela acreditava.

Três meses depois, aconteceu a segunda separação (provisória!) – era a vez dele viajar. O rapaz ia visitar uns parentes na cidade que nunca dorme e dizia já estar com saudades antes mesmo de embarcar. Prometeu ligar para a namorada todos os 22 dias da viagem – e foi assim nas 2 semanas que se seguiram. Mas depois de um domingo, ele só voltou a dar notícias para ela na quarta-feira. A namorada inclusive já estava morta de preocupação, achando que algo grave pudesse ter acontecido. Mas, aparentemente, não era nada demais – ele tinha passado por uns contratempos. E esses contratempos, aparentemente, devem ter sido bem grandes mesmo, pois o rapaz ligou apenas duas vezes depois....

domingo, 12 de setembro de 2010

recortes pt. 5

Já se fazia dois meses que tínhamos nossas aulinhas de violão semanais e por mais que estava ficando impossível conciliar meus estudos da universidade com a música noturna, eu estava me divertindo demais para poder parar. Além das "aulas" duas vezes por semana, tínhamos nossos almoços semanais também. Toda quarta-feira ele me encontrava na universidade e almoçava comigo no RU. Era engraçado o ver todo arrumado enquanto ninguém mais no refeitório usava uma gravata. (Sim, o músico, durante o dia era concursado!) Ele rapidamente fez amizades com os meus amigos e quando não dava para ele me encontrar para almoçar todos reclamavam de sua ausência.


Além dos nossos almoços e conversas, mandávamos e-mails com piadas ou reportagens interessantes e eu até tinha o convencido a me acompanhar a varias exposições de arte e cinema, atividades que nunca teria feito se não fosse meus empurrõezinhos estratégicos, mas sempre bem intencionados. Ultimamente estávamos passando muito tempo juntos. Sempre nos falávamos por telefone e aqueles encontros semanais rapidamente viraram encontros diários. Acho que grande parte da nossa afinidade vinha do fato de sermos tão diferentes um do outro, e foram exatamente essas diferenças que nos aproximava.

Um dia que tínhamos planejado ir ver uma mostra de filmes em francês no CCBB, mas eu tinha uma prova no dia seguinte e devido a falta de tempo, não tinha estudado a matéria ainda.

O músico me ligou com a maior empolgação do mundo para confirmar nosso cinema: “Não acredito que estou animado de verdade para ir ver um filme em francês! Só você mesmo para me fazer ver uma coisa dessas!” Ele falou rindo.

“Ah, sobre isso, por favor não me odeie! Tenho prova amanhã, e não vai dar para ir!” Falei essas palavras com o coração carregado, maldita prova, realmente queria ir!

“Ah, mas você é inteligente, não precisa estudar! Te busco em casa às 7 da noite!”

Percebi que tentava me elogiar para conseguir o que queria. “Ah, claro! Se sou tão inteligente assim então para que ir a universidade? Já sei o suficiente e portanto vou parar de ir e um emprego vai automaticamente cair do céu!” Respondi com o mesmo tom brincalhão dele.

“Esse é o espírito da coisa! E de qualquer forma, você vai sempre ter esse seu músico aqui para te sustentar!” Ele falou isso, provavelmente brincando sem perceber o efeito que essas palavras tinham sobre mim, e houve uma pausa um pouco maior que se esperava da minha parte.

“Está aí ainda?” Ele perguntou.

“Sim, desculpe, um brinco meu tinha caído aqui no chão...”

“Ah, ta...”

Sabia que ele não tinha acreditado muito em mim.

Esse era o problema da nossa amizade, ao mesmo tempo em que ambos queríamos mais alguma coisa, nenhum de nós era capaz de dar o primeiro passo. Não sei o que o impedia, mas da minha parte com certeza era medo de ser rejeitada e perder o que tínhamos.

“Olha, prometo que saímos amanha sem falta! Te deixo até me levar para um barzinho, que tal? Eu realmente preciso estudar!”

“Não, tudo bem, a gente se fala mais tarde ou amanha então...” Percebi que ele não estava muito feliz com minha mudança de planos.

“Pode ir sem mim para o cinema, aproveita e leva um dos seus amigos e apresente a eles o maravilhoso mundo do cinema europeu!” Ele não se convenceu muito, mas percebeu que a prova devia ser importante para eu perder um cinema, um dos meus programas favoritos e me deixou ir.

"Ah, claro! Vou chamar o engenheiro para ir lá ver comigo então, aposto que estava morrendo de vontade de ir mesmo!"

Senti-me um pouco mais aliviada vendo que ele já estava fazendo piadinhas e como meu celular estava com a bateria fraca, ele acabou a nossa conversa por nós. Foi melhor assim, eu realmente precisava estudar. Peguei meus livros e fui até a biblioteca e percebi que a noite seria longa.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Ah, se soubesse...

Ah, se eu soubesse...

como emagrecer dormindo
como ficar milionária sem fazer esforço
como criar um avatar para malhar e para corrigir redação por mim
como me livrar de gente incoveniente para sempre
como trocar o pneu do carro
como achar tudo que eu perdi
como cozinhar decentemente
como derrotar a preguiça
como resistir a tentação do bombom nosso de cada dia e da pipoca
como saber quem vale a pena e quem não vale
como ter coragem sem ter medo
como lidar com meu próprio humor
como fazer as perguntas certas
como encontrar a plenitude
como não querer matar algumas pessoas
como dar conta da minha vida sem me afogar
como voltar para borda da piscina
como botar um basta nas histórias mal resolvidas
 

Ah, se eu soubesse tudo isso...
Se eu soubesse todas as respostas...
O mundo não teria a menor graça!
Aí eu ia reclamar do que?
Eu ia aprender o que?

Lara - sabendo que não sabe de nada

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Nadar.

Sempre fui apaixonada por água e durante muito tempo sonhei em ter uma piscina em casa. Daí, aos 8 anos, quando a minha mãe resolveu me colocar na aula de natação (diferente do que aconteceu quando ela tentou me colocar na de ginástica olímpica), eu não hesitei.

Adorava a piscina da academia, os saltos de ponta, a virada olímpica, os óculos de natação, os mergulhos, os espaguetes coloridos e as apostas pra ver quem tinha mais fôlego. Adorava estar debaixo d'água.

Nadei por muitos anos, mudei de piscinas várias vezes e finalmente comecei a treinar de segunda a sexta para competições. Mas a grande questão era: eu não gostava de competir! E ninguém entendia como era possível que nas aulas os meus tempos fossem tão bons e na hora do ‘vamos ver’ um verdadeiro fiasco.

Mesmo assim, eu ganhei 3 medalhas – e também certa aversão a piscinas. Treinando tão frequentemente, aquele cheiro de cloro começou a me enjoar, a preocupação com o meu cabelo foi aumentando e o prazer em estar na água desapareceu com a pressão para diminuir os tempos e apresentar melhores resultados.

Um belo dia, eu perdi a paciência e decidi nunca mais voltar ao SESC. E pra falar a verdade, me senti aliviada. Eu não queria ser nadadora mesmo, então pra quê tudo aquilo? Decidi também que eu talvez não gostasse tanto assim de nadar e passei a me contentar em basicamente olhar a água – fosse um lago, rio, cachoeira, mar ou mesmo uma fonte. Isso já me fazia - e ainda faz - muito bem.

Mas nesse feriado, eu senti uma vontade enorme de nadar, que nem sei bem de onde veio. E eu nadei. E posso dizer que foi a melhor coisa que eu fiz em muito tempo. Mergulhar e dar aquelas braçadas me fez lembrar de coisas que eu vivi e de prazeres que antes eu não abria mão - e que tinham se perdido em algum lugar dentro de mim...

Engraçado como a gente consegue se perder desse jeito e se esquecer de coisas que costumavam fazer a gente se sentir tão bem. Muitas vezes é porque a gente acha outras coisas mais interessantes ou simplesmente porque mudamos mesmo... mas parece que tem partes da gente que ficam escondidas, esperando o momento de serem encontradas e fazerem sentido novamente. 

Rosana - procurando o caminho de volta.