terça-feira, 13 de julho de 2010

Onde nascem os textos

Às vezes sinto em mim a angústia do nascimento de um texto. É como um filho que se revira dentro do corpo da mãe, tentando decidir se luta para sair ou se implora para ficar. É uma agonia que domina, perturba, alucina.

Primeiro, vem uma vontade enorme de escrever, mas não sei nem sobre o que. É só desejo, é vontade de manipular as coisas do mundo e traduzir todas elas em palavras, frases, parágrafos. Mas eu não vivi todas essas coisas. Só posso escrever sobre o que me pertence, sobre o que minha inspiração e minha imaginação enxergam. Existem limites. Inúmeros limites.

Não posso jamais esperar que nasça de mim uma crônica digna de Clarice Lispector, ou um conto como os de Edgar Allan Poe ou os de Oscar Wilde. Não escreverei ensaios como os de Thoreau, os de Emerson ou de Virginia Woolf. Quem sou eu para escrever como eles? Não vivo as mesmas coisas que eles viveram, não conheço o mundo deles, não divido com eles nada além do gosto pela escrita. Eles escreveram o que eles foram, o que existiu dentro deles e é isso que eu faço. Nossa semelhança termina aí.

Então, o que nasce de mim é o que eu sei, o que eu sinto, o que eu compreendo. E só. E mesmo assim, só vira texto aquilo que minha própria censura permite. Irônico isso, não? Mas todos nós nos censuramos. Não posso escrever sobre o que me der na telha porque muitas de minhas histórias não são só minhas. Não tenho direito de expôr seus coadjuvantes sem autorização. Não posso tornar público meu ódio por uns e nem minha admiração e amor por outros. Não posso dividir com o leitor uma coisa que vá magoar ou prejudicar alguém de quem eu gosto. Poder até posso, mas não consigo, não me permito.

É por isso que é preciso adaptar tudo, modificar os fatos, esconder nomes. É preciso reescrever enredos, reconstruir e reinventar tudo. Às vezes, dessas mudanças nascem histórias completamente inusitadas, mas isso não tira delas minha marca. Todas são minhas. São o resultado da transformação da minha realidade em literatura. Pura e simplesmente isso.

A verdade é que os textos, todos eles, mais que de um surto de inspiração, vêm de uma experiência de vida ou de algo que eu vi e fui capaz de transformar em literatura. Parece ser um processo elementar, mas não é. Muitas vezes eu quis escrever aqui coisas que meu crivo me impediu de dividir. Mais vezes ainda eu não tive o que escrever. Hoje mesmo senti uma vontade incontrolável de escrever, mas sobre o que? O que em mim podia virar literatura? Nada?

Assunto até que tinha, mas o que valeu mais a pena foi me expôr. Despir meu processo criativo por completo e deixar claro que de dentro de mim saem histórias de pessoas aventureiras, frustradas, bem-secedidas, entediadas. Todas versões de mim mesma. Facetas da minha complexidade. E todas detalhadamente esculpidas pelo meu rigoroso senso crítico.

Se o que eu escrevo agrada, não me importa. Se eu não agrado a todo mundo, jamais poderia esperar que a minha escrita o fizesse. Não me importo com isso. Escrevo para mim e por mim. Escrevo porque é quase uma necessidade fisiológica. Porque eu ficaria louca se não fosse capaz de reinventar minha própria exitência. Porque aí eu deixaria de viver pra somente sobreviver. Qual é a grandeza e a beleza disso?

Lara - dando à luz 
  

domingo, 11 de julho de 2010

a crônica da loira

Fato é, estou sempre usando minha vida para literatura. E como não usar? Não digo de maneira alguma que minha vida é tão interessante ao ponto de que todos deviam ter uma vida como a minha. Pelo contrário, muito pelo contrário. Acredito, no entanto, que certas coisas, que aparentemente só conseguem acontecer comigo, deviam ser aproveitadas para pelo menos entreterem o meu tão pequeno círculo de leitores. Logo eu que adoro uma boa piada.


Foi assim que mais um desses tão inusitados casos do destino aconteceram. Estávamos eu e você conversando debaixo do seu bloco outro dia. Você tinha acabado de chegar do trabalho e eu estava indo para o meu carro, que, como de praxe, estava estacionado na sua quadra. (E aqui eu tomo a liberdade de me perguntar: Por que logo hoje, que eu não tinha tomado um banho o dia todo depois de um dia cheio fora de casa você decidiu falar comigo? Bom mesmo é que se eu tivesse arrumada e perfumada, não olharia duas vezes em minha direção, não é mesmo?)

Você me perguntando sobre o meu dia e eu sem a mínima vontade de conversar sobre aquilo. Já tinha se passado tanto tempo que a gente não se falava que eu nem me lembrava mais de como agir perto de você. Para falar verdade, não me lembrava mais de quase nada. Quando que você começou a deixar esse seu cabelo crescer? Quando que você deixou que suas olheiras dominassem a melhor parte do seu rosto? Quando que você começou a sorrir desse jeito pra mim? Vem cá, quando é que você se importava com o meu dia?

E você me fazendo perguntas e eu nem lembro mais se consegui respondê-las. Foi entre você me explicando que tinha mudado de emprego e eu me chutando mentalmente por não ter me perfumado que veio um carro vermelho parar bem perto da gente. Você nem percebeu, foi um alívio. Como era bom saber que você era distraído para tudo na vida e não só com o meu coração! O motorista do carro ficou nos olhando - não resisti e tive que olhar. Era uma loira. De imediato meus olhos escureceram e eu perdi a pouca paciência que eu já não tinha nesse dia e pensei: como isso é possível!? Dei uma risada.

Você não entendeu e continuou me contando sobre o certificado que tinha acabado de tirar. Ouvindo você falar tudo isso comecei a te invejar. Por que eu não escolhi uma carreira que me desse tanto retorno quanto a sua escolha profissional? Por que tudo era tão fácil para você enquanto eu sempre tive que dar dois passos a mais? Balançava minha cabeça como quem entendia tudo que você falava. (Sei que você já me explicou mais de três vezes, mas acredite, até hoje não sei dizer ou explicar o que você faz!)

Ela desligou o carro e chamou o seu nome. Suei frio e engoli o sorriso. Você virou a cabeça, olhou para ela e sorriu, mas não era qualquer sorriso. Era um sorriso normal, os especiais você reservava pra mim. Fiquei atenta para a troca de palavras, nada de muito interessante. Daria meu único rim para tirar a oleosidade do meu cabelo que estava evidente nesse momento. Ela saiu do carro e você se aproximou dela. Hora da morte. Estava tudo acabado.

E foi aí que você a apresentou pra mim. E eu não me contive, dei a risada mais gostosa que consegui soltar. É, de vez em quando a vida me dá umas boas surpresas.

O inimigo era a namorada do seu melhor amigo.

Steph - lidando com a realidade e a ficção

Mudanças

Era um dia normal. Ele acordou cedo. Talvez não tão cedo quanto pretendesse, pois usou a função soneca 3 vezes. Mas e daí? Quem não é um pouco viciado nessa interessante função hoje em dia?. Criou coragem, levantou da cama, foi ao banheiro, tomou banho e se vestiu. Depois tomou café na sala enquanto o seu pai estava acomodado na poltrona. O velho seguia religiosamente a sua rotina de aposentado. Estava lendo o caderno de esporte e assistindo as novidades ‘frescas’ do jornal das 7. A maioria das notícias, a essa hora da manhã, se resumiam ao trânsito. Para o rapaz, era importante saber qual das vias estaria mais livre ou se algum acidente dificultaria a rota até o centro. Para o velho, era uma razão diária para agradecer o fato de não precisar sair de casa – a não ser para encontrar os amigos na praça mais tarde ou fazer compras.

Depois de alguns goles de café e de três torradas, o jovem se deu conta que os minutos são preciosos pela manhã e saiu apressado. Disse ‘tchau’ , pegou suas coisas e saiu em direção a garagem. Dirigiu, ouviu música, pensou no trabalho, pensou nas férias. E nada de chegar à faculdade. O trânsito era intenso. Feliz era seu pai que não precisava enfrentar aquilo diariamente. Pensou na quantidade de carros dividindo aquelas 3 faixas, pensou em ter uma casa no campo e o trânsito parado. Olhou para o lado e viu que podia ser pior – e toda aquela gente em pé dentro do ônibus? Aos poucos, a faculdade foi ficando mais próxima. Finalmente chegou. Demorou para achar uma vaga, estacionou e seguiu caminhando até sua sala. ‘Quando que essa graduação vai acabar e minha vida vai mudar?’ foi a pergunta que martelava em sua cabeça enquanto o professor falava sozinho sobre as equações diferenciais ordinárias. Ah, essas eram umas ordinárias mesmo!

A aula acabou. Agora era o momento de relaxar com o pessoal das Humanas. Introdução a Filosofia e discussões sem fim que certamente favoreciam a interação entre as pessoas. Era o momento de colocar os assuntos em dia. Falar do futebol, da festa da Elétrica no próximo final de semana, do trabalho que tem que ser entregue na segunda. Uma hora se passou e a chamada então começou a circular. Ele assinou, despediu-se dos amigos e foi se encontrar com a namorada no lugar de sempre – o ponto entre o departamento de Letras e o de Ciência da Computação. A caminho daquele tão conhecido banco, onde o almoço das terças e quintas era decidido, recebeu uma ligação. Era da sua casa. A moça que trabalhava na casa dele provavelmente queria saber algo sobre onde guardar uma roupa ou se ele ia jantar em casa. ‘De novo’ – pensou ele. Atendeu e de repente o seu mundo parou. As equações ordinárias, a festa da elétrica, as opções de almoço para quinta-feira: nada importava mais. Não é que essa história de que em um minuto toda a sua vida poderia mudar era verdade?

Uma vez isso ‘quase’ tinha acontecido. No meio de uma aula de Álgebra Linear ele recebeu uma ligação do Banco do Brasil dizendo que tinha sido nomeado e deveria tomar posse no dia X. Ele achou que era trote, afinal era um concurso de 3 ou 4 anos atrás. Mal lembrava que tinha feito a prova. Muito menos que tinha passado. Mas não era um trote e isso quase mudou a vida dele. Era um concurso - sinônimo de estabilidade e paz para o resto da vida. Era o que seu pai tanto queria que ele fizesse – entrasse de uma vez para serviço público! Mas isso não mudou muito a vida dele porque apesar de ter assumido o cargo, ele pediu exoneração 3 meses depois. Assim, com o tempo, essa grande novidade passou a ser apenas uma experiência no seu currículo e uma lembrança de que seu lugar não era em um banco.

Mas dessa vez, a novidade era diferente. Não poderia ser apenas mais uma experiência. E muito menos ser o tipo de coisa que ‘quase’ mudou a vida dele. Entre a voz tremida e confusa da empregada, foi possível entender as palavras: ‘desmaiado’, ‘cozinha’, ‘emergência’ e – a mais importante – ‘seu pai’. Pronto, naquele momento, sua vida tinha mudado. Um mundo de acontecimentos passou pela sua cabeça e ele sabia que as coisas não seriam mais as mesmas. Encontrou com a namorada, esqueceu do resto da vida e foi para o hospital. Passou o dia lá, recebendo ligações, explicando mil vezes o que tinha acontecido – sendo que ele mesmo mal entendia. Mas não teve jeito. Era pra ser. E foi. O seu velho, com quem ele mal trocou 3 palavras pela manhã, tinha ido embora. E tudo mudou. Pra sempre.

Rosana.

sábado, 10 de julho de 2010

o porque dos por quês

hoje, uma crônica não tão literária

por que eu gosto de você? por que eu escrevo tanto sobre você, publico, anuncio em todos os lugares da internet, mas na hora H não consigo dizer que gosto de você? por que diabos eu ainda tenho essa atração por você se nem vocação pra príncipe encantado você tem? Quem nunca se fez essa pergunta, que atire a primeira pedra! Eu me vejo fazendo essa pergunta várias vezes no decorrer do mesmo dia! Mas não é só em relação a meu gosto peculiar por homens extremamente complicados e enrolados que eu me pergunto o por quê.

por que eu não falei aquilo quando eu tive a oportunidade? ai, já tinha tudo tão planejado na minha mente!
por que eu não estudei um pouquinho mais pra essa prova? caiu tanta coisa que eu sabia!
por que eu não fiz aquela dieta? agora, como vou usar o bikini na frente de todos?
por que eu recusei aquele emprego mesmo? não era a hora certa?
por que eu não atendi o telefone? por que eu não mandei aquele e-mail? por que? por que? por que?

Conheço tanta gente boa que se deixa levar pelos por quês que fico até arrepiada. Eu mesmo estaria mentindo se me excluisse dessa lista. Esses por quês são uns danadinhos mesmo, hein? Entram em nossas vidas e não nos acrescentam em nada, entram sem pedir licença e não tem hora marcada pra sair. Entram e saem com suas agendas secretas. Resposta concreta nao sou capaz de dar, mas gosto de pensar que eles entram para nos ensinar e fazer com que a gente fique mais esperto, mais atento, com nosso sistema imune mais forte e resistente a eles. A cada por que novo estaremos um pouquinho mais fortes para lidar com a situação e talvez não cair tão profundamente no desespero, nem que seja pelo menos um tiquinho de nada. Verdade seja dita: ninguém sabe porque!

Sei que é uma tarefa complicada, mas não é bem melhor um dia pelo menos conseguir dizer tudo aquilo que você gostaria de falar na hora certa e não duas horas depois? voltar para casa com um sorriso na cara porque foi capaz de dizer um "eu gosto de você" ou um "não quero só ser sua amiga, quero deitar nesse seu sofá e não ter hora para voltar pra casa." É bem melhor, não é mesmo?

Mas a pergunta não se cala: por que meu Deus? por que eu?
Acredito que até Ele soltaria um: porque eu não sei como resposta.

Steph

quinta-feira, 8 de julho de 2010

a crônica do menos

Se eu reclamasse mais, poderia correr o risco de perder todos meus amigos.
Se eu adiasse mais, bom, acho isso impossível.
E se eu estudasse mais?
E se eu me aplicasse mais?
E se eu não engordasse mais?
Como seria bom se para a Europa eu fosse mais!
Se eu pudesse ficar o dia todo na frente da televisão assistindo a todos os canais!
Se o tempo me desse horas no meu dia a mais!
Se eu conseguisse domar minha ansiedade e produzir mais.
Queria eu ser mais.
Eu sou mais.
Se eu acreditasse mais.
Se a fé eu tivesse mais.
Se a esperança em algo melhor eu não perdesse mais!
Se eu me valorizasse mais, me cuidasse mais, me amasse mais.
Queria me expressar mais, dizer mais, e sempre, beijar mais.
Se eu desse conta de me organizar e não me sobrecarregar mais - seria bom, aliás,
seria perfeito se eu das minhas olheiras me livrasse e nunca as visse mais!
Daria eu conta de enlouquecer e daqui fugir e nunca voltar atrás?
Tenho que admitir, lutar e correr atrás dos sonhos, tô achando difícil demais.
Se eu comesse salada mais e malhasse mais - acho que isso, jamais!
Se eu me perdoasse mais, seria capaz de não ter culpa mais?
Devia rir mais, sair mais, me distrair mais, não ter que pensar mais!
Sou só eu, ou alguém mais?
Ninguém mais quer ser algo mais?
Ah, se você pensasse mais, lesse mais, me olhasse mais, entenderia.
Se nos falássemos mais, convivêssemos mais, tenho certeza que também sentiria.
Se eu te chamasse mais, você iria?
Ainda me procuraria?
Ainda me enlouqueceria?
Será que eu de você ainda gostaria?
Tenho tanto pra te contar, quem sabe, talvez, pode ser que algum dia!
Já pensou se você agisse mais?
Eu escreveria menos.
Com certeza pensaria em você menos,
e mais feliz eu seria
ainda bem que isso, pelo menos!

Steph

domingo, 4 de julho de 2010

Encontros e (des)encontros

Há alguns anos, descobri que eu tinha um dom. Não foi da noite para o dia que abri meus olhos para isso. Demorou muito tempo para eu enxergar que existia uma coisa que eu fazia bem.

Tudo começou com uma professora que me achava acima da média. Ela me perguntou se eu tinha morado fora quando eu era pequena porque minha habilidade para falar Inglês era "acima da média". No auge dos meus 14 anos, respondi que não e não dei a menor importância para opinião dela. Para mim, era puro puxa-saquismo. Mas o tempo foi passando, e eu fui me aprimorando. O inglês vinha fácil para mim. A gente se entendia, se completava.

Resolvi tomar coragem e fazer dele minha profissão. Passei no vestibular sem grandes esforços, mas não só por mérito meu. É que estudar Letras é sonho de poucos, né? Não tem mais o prestígio que tinha antigamente. Então, a concorrência é menor.

Desde o início do curso, eu sabia que havia feito a escolha certa. Aquilo era mesmo o que eu queria estudar. Literatura sempre foi minha paixão, a Gramática me fascinava, a Linguística me divertia. Letras-Inglês era mesmo para mim. Não era o curso da moda e nem o mais valorizado, mas isso nunca me importou. Estudar Letras é para poucos e eu era a nata do curso.

Do mesmo jeito que eu me apaixonei pela língua, me apaixonei pela ideia de poder ensiná-la aos outros. Ser professora era um sonho. Quanta honra existe em moldar uma mente, em ensinar alguém? Era isso que eu iria fazer da vida. Aos 18 anos, eu já tinha certeza disso. Sabia que jamais ficaria rica assim, mas achava que a beleza da profissão me bastaria. Engano meu!

Nos anos que se seguiram, não vivi uma relação pacata com minha profissão. Trabalhei em escolas que me fizeram enxergar a feiúra do comércio da educação. Vi que os príncipios nos quais sempre me paltei não exitiam diante do negócio, dos clientes, das vendas; educação passou a ser produto e aluno, comprador. Não demorou muito e me desencantei. Eu era impotente diante da magnitude daquilo tudo. Ou me conformava ou desistia. Larguei tudo. Desisti de ser professora, me dediquei à academia, formei e fui passar uma temporada fora, conhecer gente nova, aprender a ver o mundo sem tanta amargura.

Voltei para casa mudada, mais madura e mais vivida e senti que era hora de tomar rumo na vida. Como todo brasiliense, fui estudar para concurso. Mas a vida quis que fosse diferente. Uma oportunidade única apareceu e eu não pude recusar. Voltei a dar aula. Comecei a me sentir viva de novo porque eu fazia a diferença. Todo dia eu tinha a oportunidade de fazer alguma coisa pelos meus alunos. Era finalmente o que eu queria.

Mas depois da calmaria, vem a turbulência. Mais uma vez me vi pressionada a largar meu emprego. O dinheiro era pouco e o trabalho era muito. Tive que aproveitar enquanto moro com meus pais para me dar ao luxo de ficar sem trabalhar. Concursos novamente! Ai, que tédio! Que vida mais ou menos!

Não aguentei muito tempo minha rotina de concurseira e mais uma vez me reencontrei com o passado. Surgiu a oportunidade de voltar para meu emprego antigo e não pestanejei. Eu estava com saudade da escola, sabe? Saudade de ter uma profissão, um ofício de verdade.

Não pestanejei em aceitar o emprego, mas questionei se estava fazendo a coisa certa. Ser professor não é fácil porque implica muitos sacrifícios. É sempre um investimento a longo prazo. É trabalho duro diariamente, é levar preocupação para casa todo santo dia, é pensar nos alunos mais que em si mesmo. Será que eu queria isso mesmo?

Certeza eu não tinha, mas fui trabalhar mesmo assim. Estava disposta a dar o meu melhor para ver onde tudo ia dar. Para minha satisfação, não demorou muito para aparecer ex-alunos felizes de me ver de volta. Todos me encheram de abraços e deixaram claro que estavam contentes de me ver de volta. Pediram para eu dar aula para eles de novo. Logo eu que exigi tanto deles, que fui tão dura! Não existe alegria maior que essa, recompensa mais doce do que ver o fruto do trabalho bem feito diante dos próprios olhos.

Tive certeza. Fiz a coisa certa. Não posso virar as costas para meu dom, não é mesmo? Sei que não vou ficar milionária dando aula, mas serei incrivelmente feliz fazendo o que eu gosto e sei fazer. Levantarei todo dia e farei a diferença na vida de alguém. Contribuirei para sociedade. Quantas pessoas têm a oportunidade de dizerem que fazem o mesmo? Sou uma privilegiada!

E outro dia, quando eu estava na fila do cinema, uma senhora muito interessante puxou papo comigo. Conversamos mais de meia hora sobre educação e ensino. Uma professora aposentada e eu, engajadas em um diálogo fascinante sobre o papel do professor na sociedade. Um encontro casual eu tenho certeza de que não foi. Isso não existe! Foi um encontro certo, na hora certa, de duas pessoas que tinham que se conhecer. Foi uma conversa breve, mas que me marcou. Eu precisava ver que ainda existem pessoas que acreditam nas mesmas coisas que eu, que me dão coragem para não disistir e ela estava ali para isso. Como eu gosto de pensar, é o jeito que a vida acha de nos mostrar que estamos no caminho certo.

O que aprendi com isso tudo? QUe tenho que confessar que já cometi muitos erros na vida, mas estudar Inglês está longe de ser um deles. Tenho um dom e é meu dever abraçá-lo, dedicar-me a ele, usá-lo para gerar frutos. O preço que pago por isso é minúsculo diante da grandeza e da beleza da profissão que escolhi. E é nisso que tenho que pensar sempre para que eu tenha forças para jamais desistir da educação.

Lara - professora e educadora

PS: Para inspirar...



coisa de novela

tô nem aí se é brega!

segue mais uma crônica!

Hoje encontrei com uma amiga minha e contei tudo pra ela. Tudo mesmo. É possível sentir saudades das coisas que você ainda não viveu? Pois é, hoje a noite, senti. E muita. Conversamos até eu me gripar. O frio e meu cabelo molhado do banho que tinha acabado de tomar não combinaram muito bem. A batata frita no meu prato já estava fria, mas não importava, eu continuava contando tudo pra ela. Tudo mesmo. Ela me ouviu, ouviu, ouviu. E entendeu. As poucas batatas fritas que restavam no meu prato continuavam esfriando.


Depois de escutar o drama todo, foi a vez dela falar. Mil e um conselhos. Muitos risos da minha parte - como que ela me sugeria uma coisa dessas? Nem com muita tequila isso seria possível! Ou seria? Não, acho que não. Mais risos. Estava muito frio e meu cabelo ainda estava bem molhado. Dei o primeiro espirro de vários. Finalmente consegui terminar de comer as batatas fritas frias. O que a minha amiga falava, fazia muito sentido, lógico que fazia, ela já tinha passado por tudo isso. Falar é muito fácil, não é mesmo? Continuamos conversando por mais uma hora e pouco. Estava muito frio.

Ao pagar a conta fomos pro meu carro para ela buscar o seu presente. Ela estava me abandonando. Estava indo pra Itália com seu namorado para morar indefinidamente pela Europa e eu iria ficar. Por que eu sempre fico? Queria ter essa coragem. Queria ter esse tipo de namoro. Queria mesmo era ir pra Europa! Conversamos mais um pouco, mas minha crise de espirros a assustou. Nos despedimos. Queria tanto ter um rumo - é pedir demais?

Liguei o carro, mas não estava pronta para ir pra casa. Sexta feira a noite e ninguém na rua. Todos de luto pelo Brasil. Me encontrei na sua quadra, no seu bloco, na sua portaria. A luz do seu apartamento estava acesa, decidi arriscar. Interfonei e você atendeu. Não estava nervosa, estava decidida. Com o seu violão em mãos, entrei no seu apartamento. Você sorrindo pra mim daquele jeito, e ainda tem gente que diz que a vida não tem poesia. Você claramente não entendeu o que eu estava fazendo lá e foi aí que eu perguntei:

"Por que você me procura?"

"Te procuro?"

"É. Por que você me liga, conversa comigo, me chama pra sair se no final das contas não quer nada sério comigo? Por que você me procura?"

Por essa você não esperava, hein. Te peguei e você estava sem saída. Tinha que responder. Você estava na minha frente e não podia mudar o status para ausente, e nem sair sem se despedir e nem me bloquear. Tinha que responder.

"Por que você acha que eu te procuro?"

"Não vale responder com pergunta. Eu perguntei primeiro."

Mais um momento de silêncio.

"Te procuro por que você está sempre por perto."

Não gostei da resposta. Não era o suficiente. Entreguei o violão de volta, e inventei uma desculpa para ir embora. Foi aí que ao você me abraçar para se despedir de mim, finalmente te dei aquele beijo que eu tanto esperava. Foi com tanto gosto, com tanta vontade, que quando eu lembro desse momento parece que ele nem aconteceu. Ele foi épico e decepcionante. Você o retribuiu com mais vontade do que eu esperava. Sorri internamente. Eu tinha vencido, agora eu era o herói, como diria Chico Buarque.

Eu interrompi o beijo e fechei a porta sem olhar pra trás. Não queria estragar o momento. Nem se eu tivesse planejado teria sido tão perfeito. E ao descer as escadas do segundo andar até o térreo sentia que você me olhava da sua janela. Você não sabe explicar até hoje, mas você, por alguma razão, desceu também as escadas e me seguiu. Ao abrir meu carro, você estava do meu lado e com a respiração um pouco ofegante falou:

"Eu te procuro por que gosto demais de você."

E você me beijou.

Steph - precisa nem falar, né?